Foi o mistério da morte, e não o do nascimento, que incitou o homem primitivo a refletir sobre seu ciclo de vida e meditar sobre seu destino.
Quantas dúvidas e medos assombram e perturbam a existência por conta desse mistério!
O ser humano precisa encontrar uma forma de ‘consolo’ por ter que morrer um dia – fato inevitável, indiscutível, mas inaceitável.
E ainda pior é o medo do desconhecido – será que existe vida após a morte? Se existe, para onde vou? Como será a partir de então? Quem sou eu, afinal? Como aceitar o desapego do mundo material e das pessoas amadas?
O nascimento ainda tem uma explicação científica que basta ao homem comum, porque ele consegue apreender aquilo que é visível, que é o corpo físico. Desta forma, ele praticamente não questiona de onde veio e como veio. Mas na morte, o corpo não mais terá vida, um corpo no qual ele se apegou, sentiu prazer, amou...
Desde que o homem teve consciência da morte, ele passou a buscar respostas às suas dúvidas e uma forma de se sentir amparado por Deus ou aquilo que ele acredita.
E assim, até hoje o homem se questiona sobre o que está ou não está escrito na Bíblia, buscando pistas que possam provar ou não a ressurreição ou a reencarnação. É na Bíblia, que ele tenta encontrar as respostas, já que essa é a sua grande referência. Entretanto, cada um lê a sua Bíblia e entende-a de uma forma diferente, conforme a sua religião, conhecimento, evolução espiritual e fé.
Temos três pontos a serem considerados nessa avaliação...
1. Sabemos que alguns textos da Bíblia foram escritos a.C. e outros d.C., muito tempo depois da passagem de Jesus pela Terra, conforme a sua lembrança e compreensão. No decorrer dos tempos, o texto bíblico foi alterado e manipulado, de acordo com as interpretações dos tradutores, além dos interesses religiosos e de cada época. Percebemos isso facilmente quando juntamos um grupo de pessoas e nenhuma Bíblia é igual à outra. Até o Pai Nosso que deveria ser único, é diferente nas palavras para cada grupo religioso.
2. Mesmo para um leigo no assunto, é sabido que as palavras têm muitos significados, tanto isoladas quanto dentro de um contexto, podendo inclusive assumir conotações diversas. Numa avaliação mais profunda, ainda temos que considerar uma interpretação de acordo com a cultura e a época da história no qual ela se insere. Como tudo se transforma, inclusive a linguagem, as palavras ficam “desatualizadas” e novas palavras são usadas, criadas ou incorporadas de outras línguas, assim como recebem novas conotações e significados, conforme a época e o lugar.
3. Sabemos também que o ensinamento de Jesus, nosso Mestre, é muito profundo, com sentido figurado, alegórico, metafórico, tornando-se assim inacessível para aqueles que não têm conhecimento suficiente e só conseguem apreender seu sentido superficial e literal. Por isso as frases de Jesus:
· “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem.” (Mateus 7:6).
· “Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça. (Mateus, 11:15).
Temos, portanto, muitas interpretações sobre a ressurreição e a reencarnação, assim como temos relatos de experiências espirituais e evidências diversas. Mas em nenhuma das duas opções, temos provas científicas, porque não são replicáveis em laboratório como requer a ciência. Entretanto, como em toda a história da humanidade, é preciso tempo suficiente para que algumas questões sejam realmente esclarecidas e comprovadas.
Antigamente, por exemplo, pensava-se que a Terra era plana e fixa, com o Sol, a Lua e as estrelas rodando ao seu redor, o que até parecia ser verdade, mas não passava de uma ilusão. Foram precisos muitos séculos, muita luta e sofrimento dos cientistas para que os homens aceitassem que é a Terra é redonda e gira sobre do seu próprio eixo.
Conceitos, fatos, estudos, antes considerados demoníacos, ocultistas, coisas de bruxas e hereges, hoje são aceitos normalmente. Desta forma, as conjecturas sobre ressurreição e reencarnação também serão ‘desvendadas’. Temos que lembrar que conceitos mudam e, no instante seguinte, ele já é um “pré-conceito”.
O ser humano sabe que, quando morrer, seu corpo físico irá se transformar, vai se decompor. Os elementos químicos que o compõem serão absorvidos por outros organismos, que também se transformarão um dia, sendo esse ciclo infinito.
Não existe qualquer possibilidade desses corpos voltarem a existir materialmente. Podemos dizer que eles somente voltarão a compor um corpo, considerando-se o ‘ciclo de transformação da matéria’, mas não o mesmo corpo físico como era antes.
“A centelha divina incorporada no homem não pode se apagar ou desaparecer, como não pode desaparecer um átomo constituinte da matéria do corpo físico. Tudo é eterno e se transforma continuamente, pois nada se perde. Esta é a lei comprovada pela ciência no que se refere à matéria.” (texto de autor desconhecido)
A questão é: o que queremos ou não aceitar como verdade.
O que faz sentido para você?
Quando pensamos em reencarnação, temos que considerar que carregamos em nossa consciência individual tudo o que realizamos de bom e de ruim, conforme as Leis Divinas. Esse ‘registro’ é de nossa total responsabilidade, e ao retornar ao plano terreno, vamos continuar nosso processo evolutivo consciencial, porque temos muita coisa para corrigir e melhorar. E este processo só será finalizado quando adquirirmos a consciência cósmica para então nos reintegrarmos a Deus.
Na ressurreição, por sua vez, desconsideramos o que realizamos durante a vida e buscamos ‘simplificar’ o caminho de volta para Deus, porque da morte, saltamos para a salvação ou “fogo eterno”.
“E irão estes (maus) para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna.” (Mateus 25:46).
E assim, ficamos aguardando o Juízo Final, no qual Deus julgará todos os seres humanos e decidirá seu destino, arbitrariamente e sem perdão ou chance de correção, ou seja, não há o que fazer... é só esperar pelo “veredicto”. Mas sendo os seres humanos tão imperfeitos, como seria esse julgamento? Com certeza, eles não terão a tão esperada ‘salvação’.
Se Deus nos deu a vida, como seres imperfeitos, para que aprendêssemos com nossos erros e evoluíssemos consciencialmente, tendo-nos dado como dádiva o livre-arbítrio, como Ele poderá nos julgar tão sumariamente, sem nos dar a chance de corrigir nossos erros? Será que até um Juiz do plano terreno não seria mais flexível?
Podemos concluir que a reencarnação seria uma ferramenta da Lei Divina para “evolução do ser”, enquanto que a ressurreição sugere uma “estagnação do ser”, que não evolui e não tem como melhorar, porque seu fim é decretado. Além de ser muito cômodo, porque não há nenhum esforço para se tornar um ser humano melhor a cada dia.
Portanto, a compreensão sobre ressurreição ou reencarnação é primeiramente uma questão de CONHECIMENTO e FÉ. Nossa imaginação, nossa vida ilusória, nosso ego, nossa esperança e expectativa, nos conduzem para onde permitirmos, conforme o nosso livre-arbítrio. Depende de cada um a busca pela sua verdade.
Mas, proponho uma ressignificação ao que consideramos sobre este assunto...
Sendo a vida eterna, será que não podemos considerar tanto a reencarnação como a ressurreição como partes de um mesmo ciclo, ou seja, encarnamos no plano terreno e ressuscitamos no plano espiritual?
“Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual.” (Coríntios 15-44)
E considerando ainda que somos seres em evolução, por que não ‘reencarnar e ressuscitar’ quantas vezes forem necessárias para nossa evolução consciencial?
Afinal, nossa alma foi criada por Deus à Sua imagem e semelhança, mas precisa de um corpo físico para se manifestar neste plano. Isso é “encarnar”, pois é preciso o “corpo de carne”. E quando o corpo físico morre, nossa alma fica livre e volta ao plano espiritual, em forma de energia sutil, assim como era antes de encarnar.
Isso implica considerar que a ressurreição, após a morte do corpo físico, ocorre no plano espiritual, quando a alma volta à sua origem. É a ressurreição para a vida verdadeira, que é eterna, mas que passa por esse ciclo para ‘aprendizados’, até que atinja a compreensão da sua origem e destino.
No decorrer da nossa vida, o mistério se mantém até um dia possamos entender e, quem sabe, comprovar a “verdade” para todos aqueles que precisam disso. O conhecimento e a fé são os principais condutores para o ‘descortinar desses véus’, que envolvem a nossa existência e, assim, elevamos nosso nível de discernimento, compreensão e consciência.

