Existem histórias na vida das pessoas, que marcam profundamente quem as vivenciou...
Ouvi a história de uma pessoa, a quem vou dar o nome de Luísa. É uma história impactante, talvez por ser algo não muito comum na vida da maioria das gestantes, que sonham e planejam o dia do nascimento dos seus filhos com toda alegria e expectativa.
Existem aquelas horas nas quais você precisa realmente de alguém para dar um suporte, uma ajuda, fazer companhia, e às vezes, numa hora de extrema dor física ou emocional... E quando nestas horas, a pessoa é ‘abandonada’, isso é algo marcante, que fica gravado no seu inconsciente. Mesmo que passe muito tempo, aquilo estará lá, registrado.
E foi isso que aconteceu com a Luísa, que passou anos tentando entender o motivo que levou seu marido a uma ação que, para ela, era injustificável.
Tudo aconteceu a partir do momento em que ela estava para dar à luz ao seu primeiro filho.
Luísa teve uma gestação difícil, por problemas emocionais que comprometeram uma boa parte da placenta, tendo que ficar de repouso até o final da gestação. Mesmo assim, aconteceram vários outros problemas físicos e emocionais nos dias que antecederam o parto, que afetaram ainda mais sua gestação.
Quando estava com 8 meses e 15 dias de gestação, Luísa foi com seu marido à ginecologista/obstetra que a acompanhava para fazer os exames necessários e a médica sugeriu fazer uma amniocentese. Este é um procedimento invasivo, no qual a médica introduz uma agulha na barriga da gestante para retirada de líquido amniótico do útero, com o intuito de analisar células fetais e identificar anomalias. É feito com ajuda de um ultrassom para não correr o risco de machucar o bebê. Imagine a agonia que a mãe sente...
A tentativa foi em vão, porque não existia mais líquido amniótico no útero, ou seja, uma cesárea tinha que ser feita o quanto antes, para evitar que o bebê entrasse em sofrimento. A cesárea foi marcada para o primeiro horário da manhã do dia seguinte.
Assim, ela foi para casa, acabar de arrumar as malas e ir para a maternidade, no finalzinho da tarde deste mesmo dia. Um misto de alegria de ver seu filho, e de agonia, esperando que tudo corresse bem, e ele estivesse perfeito e saudável.
Seu marido a levou para a maternidade e a deixou instalada no quarto. Mas... o que aconteceu em seguida, foi algo impressionante, inimaginável para aquele momento! Ele se despediu e disse que iria dormir em casa e voltaria no dia seguinte.
Luísa ficou completamente sozinha na maternidade, numa agonia inexplicável com a dor da falta de amor e acolhimento naquela hora, que deveria ser muito especial, e a falta do seu marido ao seu lado.
As enfermeiras a prepararam para o parto, que seria nas primeiras horas da manhã seguinte, e o silêncio se fez... estavam sós, ela e o bebê.
Não existiam palavras para descrever as emoções contraditórias dentro do coração da Luísa. Ela não entendia e, ao mesmo tempo, tinha que seguir sozinha e receber seu filho. Com certeza, não conseguiu dormir nessa noite.
Logo cedinho, ela foi levada para o centro cirúrgico, sozinha. Não tinha ninguém ali para lhe dar ‘força’, para dizer-lhe palavras amorosas, para apertar sua mão, para decidir algo importante, para lhe acompanhar e acolher. Era ela sozinha com seu bebê e a equipe que o traria para este mundo.
O marido? Apareceu depois.
Marcas ficaram para sempre, porque apesar de essa ser uma hora especial, é o momento em que a mulher mais precisa e deseja se sentir tranquila, acolhida, amada. Ter o apoio do marido, e pai de seu filho, seria algo imprescindível e esperado, mas não foi o que aconteceu.
O filho nasceu com saúde, perfeito, sem nenhuma sequela. Desenvolveu-se plenamente e sem problemas.
Muitos anos mais tarde, com o filho já adulto, Luísa perguntou ao marido o motivo que o levou a ir embora e tê-la deixado sozinha naquela maternidade. Ele disse que estava ‘apavorado’.
Ela me contou que ficou impactada, mas não surpresa, com a sua justificativa. Mas que sua resposta não justificava nada, apenas demonstrava a sua ‘fraqueza’. Ele que sempre foi autoritário, machista, naquele momento do parto deixou sua ‘máscara’ cair.
Luísa também pensou em como ela mesma estava apavorada diante das circunstâncias pelas quais estava passando naqueles dois dias de intensa tensão e expectativa. Imaginava estar com o marido e juntos receberem seu filho, com todo amor e cuidado um com o outro. Tudo isso acabou marcando para sempre a sua vida.
Esta história verídica vem nos alertar de que ‘olhar para o outro’, ‘sentir o que o outro sente’, ou seja, ter empatia, amor, respeito, diálogo, é de suma importância na vida dos casais. Quantos relacionamentos vão se rompendo aos poucos, por falta de apoio, companheirismo, respeito, acolhimento, carinho, e principalmente diálogo.
A posição do marido expõe o lado egoísta das pessoas e a falta de coragem para enfrentamento dos seus medos, os quais aparecem em situações de pressão, dificuldades emocionais… Muitos optam por ´fugir´ em vez de enfrentar. Estar ao lado da família, em qualquer situação, é o que deveria acontecer, fortalecendo os laços familiares e ajudando a superar os pontos fracos de si mesmo.
As fragilidades existem de ambos os lados. Trazemos muitas questões não resolvidas dentro de nós e precisamos inclusive de terapias, que possam ajudar a fazer as pontes entre as pessoas.
Precisamos uns dos outros, e quando escolhemos unir nossa vida a alguém, isso fica ainda mais forte, porque cria-se um vínculo entre vidas, que se entrelaçam e têm compromissos entre si.
Muitas dores e traumas poderiam ser evitados se fizéssemos aos outros o que gostaríamos que nos fizessem, se tivéssemos empatia, amor... no mínimo o respeito devido como seres humanos que somos.
Como você enfrenta seus medos?






